Destinação de Resíduos de Madeira Tratada

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24 de Maio de 2020
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24 de Maio de 2020

Madeira tratada contém produtos químicos denominados como preservativos, que têm como objetivo aumentar o máximo possível a durabilidade desse material quando em uso.

Todo material tem a sua vida útil definida, madeira tratada não é exceção. Ao mesmo tempo,todo material, ao ser removido de serviço, terá de ser destinado de alguma forma, preferencialmente uma forma que permita a reutilização ou reciclagem do material em questão.

Hoje no Brasil o assunto é devidamente regulamentado através da Resolução CONAMA 307 e pela adoção da Política Nacional dos Resíduos Sólidos – PNRS, que determinam os cuidados a respeito da disposição de todo e qualquer resíduo gerado, seja ele de qualquer natureza.

NO caso da madeira tratada ,são definidos como resíduos desde pequenas peças resultantes de cortes e entalhes até peças removidas de forma permanente do seu uso original, como mourões de cercas, postes, dormentes, etc. Materiais ou produtos de madeira tratada quando reutilizados de forma consistente não são considerados como resíduos descartáveis.

Em países onde a madeira tratada é utilizada tradicionalmente em volumes muito significativos, há recomendações e legislações que abordam a respeito de padrões de gerenciamento desse tipo de resíduo. Nesses países, o setor que mais gera resíduos desse tipo é o da construção. Só para se ter uma dimensão, nos Estados Unidos, nas ultimas duas décadas foram aplicados, em média, volumes anuais da ordem de 13,0 a 14,0 milhões de metros cúbicos de madeira tratada em sistemas construtivos. Decks, estruturas de coberturas e de painéis, assim como revestimentos, são tradicionalmente utilizados desde os tempos coloniais naquele País. A cultura do uso da madeira em sistemas construtivos permitiu o desenvolvimento tecnológico, gerando inúmeras normas técnicas que, por sua vez, têm disciplinado de forma exemplar o uso da madeira tratada, incluindo, mais recentemente, o gerenciamento padrão relativo à destinação de resíduos em muitos estados.

No Brasil, os volumes de madeira tratada destinados às várias finalidades de uso ainda não são tão expressivos. No setor da construção o uso de madeiras tropicais nativas ainda é predominante. Dados divulgados pela ABIMCI – Estudo Setorial 2008 – base 2007, apontam consumo da ordem de 22,0 milhões de metros cúbicos de madeiras serradas, dos quais mais de 60% obtidos das florestas tropicais nativas. O setor da construção respondeu por um consumo da ordem de 4,6 milhões de m³, de longe com a predominância da madeira nativa sem tratamento. As estimativas de utilização da madeira tratada no nosso País indicam um volume anual da ordem de 1,2 milhões m³, dos quais, no máximo 10% estariam sendo  destinados à construção. Os restantes 90% estariam sendo destinados à produção de mourões para cercas (60%) , postes e dormentes ( 15% cada), com a larga predominância do eucalipto.

Essas considerações a respeito de volumes são interessantes, na medida em que refletem a dimensão futura relativa à geração de resíduos de madeira tratada. Comparado a certos países com forte tradição na utilização da madeira tratada, os volumes brasileiros são até insignificantes. No entanto, não nos isenta da atenção a respeito do tema relacionado aos padrões de destinação, mesmo porque se observa forte tendência de crescimento desses volumes anualmente. Nada mais saudável do que se definir medidas de forma preventiva.

Vale mencionar que as atividades relacionadas à preservação de madeiras são devidamente regulamentadas através da Portaria Interministerial 292 de 28/04/1989 e Instrução Normativa 05 de 20/10/1992. Encontra respaldo técnico nas normas brasileiras no tocante ao uso da madeira tratada para várias finalidades, com destaque para a NBR 9480 (mourões), NBR 8456/8457 (postes) , NBR 7511 (dormentes), NBR 7190 ( em revisão – estruturas) e algumas outras. Trata-se, portanto, de atividade devidamente regulamentada e amparada por normas técnicas ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

Cuidados Iniciais

Todo e qualquer uso da madeira tratada deverá, primeiramente, estar em harmonia com as regras do não desperdício e planejamento de uso. Em outras palavras, as práticas de fornecimento de peças com sobremedidas são inaceitáveis e o planejamento de qualquer obra, desde uma pequena cerca de jardim até uma completa estrutura de cobertura de uma grande edificação, deverá obedecer rigorosamente a um projeto inicial, por mais simples que seja, onde a aplicação de qualquer peça ocorra exatamente de acordo com as necessidades.

As peças de madeira tratada deverão ser adquiridas exclusivamente de empresas tratadoras de madeira (Usinas de Preservação) que estejam atendendo plenamente aos requisitos legais, como por exemplo, devidamente licenciadas nos órgãos competentes para operar como tal e utilizando produtos preservativos registrados conforme previsto pela legislação. A exigência por relatórios que indiquem a qualidade do tratamento é muito importante. Nesses relatórios, as indicações de retenções dos ingredientes ativos por metro cúbico de madeira tratada poderão garantir a vida útil esperada das peças adquiridas evitando a geração de resíduos devido à necessidade de substituições prematuras por falha de desempenho. É muito importante observar a retenção exigida para cada finalidade de uso evitando a aquisição de peças com retenções acima do mínimo estabelecido pelas normas técnicas em vigor. O texto relativo à preservação de madeiras constante da NBR 7190, ora em revisão, apresenta de forma detalhada as retenções especificadas por tipo de preservativo utilizado e condições de uso da madeira tratada. Adotando retenções especificadas, minimizam-se as chances futuras de geração de resíduos com maior nível de ingredientes ativos facilitando a destinação final.

Alternativas para Destinação

Qualquer que seja a alternativa adotada para a destinação de resíduos de madeira tratada é importante a introdução dos conceitos relacionados às práticas conhecidas como “desconstrução”. Neste caso, antes do desmonte de uma edificação, linha férrea, rede de distribuição de energia ou telefonia ou qualquer outro tipo de construção, realiza-se um detalhado levantamento de todos os materiais existentes, o que possibilita o planejamento das ações de destinação final de cada material, considerando suas características, potencial comercial e legislações pertinentes. A madeira tratada pode ser apenas um item de todo o processo e neste caso algumas alternativas devem ser consideradas:

Reuso: No caso de substituição de peças, depois de cumprido seu período de vida útil, é comum destinar essas peças para outras finalidades, evitando a geração de resíduos e, por consequência, a demanda por áreas de aterros.  Restos de mourões de cerca ou dormentes são muito valorizados na área do paisagismo, como cercados de pequenos jardins, degraus de escadas rústicas, demarcadores de terrenos, etc. Restos de postes de madeira tratada atendem perfeitamente a demanda por madeiras utilizadas nas construções de galpões rústicos, esticadores de cercas ou pequenos postes de sinalizações urbanas e rurais. São produtos de reuso bastante procurados, pois, apresentam perspectiva de vida útil muito boa, além de material de baixo custo. Muitas vezes são considerados materiais decorativos com ótimo espaço no mercado.

Restos de madeira tratada jamais devem ser utilizados para fogueiras, ou como lenha de fogões, lareiras, churrasqueiras ou equivalentes.

Reciclagem: Em certos países já há um novo tipo de negócio especializado na coleta e transformação de madeira tratada retirada de serviço e transformada em outros produtos comercializáveis. Postes são verdadeiras toras que, uma vez inservíveis como tal, poderão ser processados e transformados em pranchas ou tábuas destinadas a construções diversas, réguas de decks, cercados, pisos de passarelas de parques, etc. No caso de grandes volumes, existe a possibilidade de transformação de restos de madeira tratada em cavacos ou partículas para a fabricação de painéis diversos, incluindo compósitos.

Incineração/ Queima : A adoção de incineração em nível industrial é praticamente inacessível mesmo em países onde os volumes são significativamente maiores que no Brasil. Uma solução alternativa e viável é o emprego de restos de madeira tratada para aproveitamento energético como substituto parcial de combustíveis em fornos ou caldeiras, com sistemas de controles de queima e emissões.

Aterros: A destinação para aterros industriais – Classe II A – resíduos não inertes – ou para aterros industriais – Classe I – resíduos perigosos – é prática corrente e permitida desde que estejam devidamente licenciados pelos órgãos ambientais competentes e em sintonia com as legislações vigentes.

Em resumo, todo e qualquer material utilizado em sistemas construtivos estão sujeitos aos devidos enquadramentos relacionados à sua destinação final. Plásticos, metais de toda natureza, materiais cimentícios, gesso, vidros, superfícies com acabamentos especiais, acrílicos, entre inúmeros outros. A madeira traz em seu bojo a sua origem. É o único material construtivo fabricado pela própria natureza, a árvore, portanto, um recurso natural renovável e, dentro do seu ciclo de vida, contribui com a captação e  sequestro de dióxido de carbono , um gás de efeito estufa. Medidas de destinação desse material tratado, quando inservível, estão longe da complexidade de muitos outros materiais alternativos utilizados em qualquer tipo de construção.

 

Flavio C. Geraldo
Arch Química Brasil Ltda
Gerente de Negócios – América Latina
fcgeraldo@archchemicals.com