Assim Caminha a Humanidade

Ainda sobre a destinação de resíduos de madeira tratada
12 de fevereiro de 2019

A madeira é um material com o qual o ser humano sempre conviveu, convive intensamente e sempre conviverá. Ao mesmo tempo em que mantemos profunda relação com esse material, muitas vezes não o percebemos. Acompanha-nos desde que nascemos, dando segurança durante nosso tranquilo sono nos berços quando bebês, e nos tempos mais remotos, suprindo as fontes de aquecimento nas fogueiras e na preparação dos alimentos. A natureza sempre foi também a maior fonte de suprimento desse material construtivo incomparável, desde que o Homem optou por sair das cavernas e dar asas à imaginação, ganhando mobilidade para as suas moradias e proporcionando maior conforto para os seus grupos. Ao longo do tempo o ser humano foi expandindo as possibilidades de uso da madeira. Corantes de alguns extrativos, essências diversas, mobiliários, brinquedos e confecção de armamentos, são alguns dos poucos exemplos dessa expansão de uso. Porém, além de material construtivo e fonte de energia, fundamentais à sobrevivência do ser humano, foi também na fabricação do papel e nos meios de transporte que a madeira complementa a sua enorme relevância. Desde os tempos mais remotos o Homem utilizou diferentes materiais para registrar sua história, sempre dependente das árvores. Os primeiros registros eram feitos em folhas e cascas, depois passaram a ser feitos em peles, ossos e rochas. Surge então o papiro e muito tempo depois, apesar dos segredos guardados a sete chaves pelos chineses, a fabricação do papel ganha o mundo. Estavam garantidos os registros dos caminhos do homem e as emoções dos contos e romances. Nos transportes, foi o material que permitiu a expansão das civilizações através do planeta, quebrando o paradigma que afirmava que a terra era plana. As caravelas de madeira permitiam a busca de novas fontes de riquezas e num momento crítico da dinâmica populacional em algumas regiões da Europa, permitiram a melhor distribuição das populações concentradas naquele continente, onde as fontes de alimentação escasseavam. E assim caminhava a humanidade, até que frente à escassez e à percepção da enorme importância que as árvores têm na conservação ambiental, inúmeros materiais alternativos vão surgindo. Maior exemplo de exploração desordenada e a escassez como consequência é a experiência vivenciada pelos Rapanuis, habitantes do chamado umbigo do mundo, a Ilha de Páscoa, onde a euforia pela construção de estátuas gigantes, Moais, levou à extinção de qualquer espécie arbórea na região. Os troncos serviam como esteiras rolantes para o deslocamento das estátuas que pesavam toneladas. E assim, a humanidade vai convivendo com a madeira, uma relação que merece ser discutida. As técnicas de cultivo e produção de indivíduos arbóreos programados para o abastecimento de produtos florestais específicos são realidade. Somado a tudo isto, o setor industrial madeireiro evolui, ou deveria evoluir, para a produção de peças industrializadas, único caminho que colocará a madeira cultivada em condições de competir com materiais alternativos. Na construção, madeiras tropicais nativas estão mais restritas a cada dia. Pressões de natureza ambiental, aliadas às econômicas, inviabilizam a industrialização desse material e ao mesmo tempo, madeiras tropicais nativas, oriundas de projetos de manejo sustentado, não dão conta de atender a atual demanda. O mercado da construção se vê hoje diante de materiais cujos apelos levam ao engodo. Estruturas industrializadas para coberturas de edificações confeccionadas com elementos metálicos ganham o mercado em velocidade espantosa e, por mais incrível que possa parecer, com o marketing apoiado em apelos ambientais completamente equivocados. Chegam a apelar para denominações como “aço verde” ou “aço ecológico”. Pode um material do extrativismo, não renovável, com altíssimo consumo de energia por tonelada , carregar apelos ecológicos? Claro que não! Outro exemplo gritante: “a madeira plástica”, destinada à construção de decks ou cercas. Pode um material derivado do petróleo, não renovável, de altíssimo consumo energético por tonelada, não degradável, carregar também apelos ecológicos? Claro que não! Mesmo diante da convivência e da longa experiência do ser humano com esse fantástico material denominado madeira, parece que nós, brasileiros, não assimilamos devidamente a cultura do uso da madeira, prestigiando modismos e acreditando em falsas mensagens ligadas a materiais que nada têm a ver com o real conceito da sustentabilidade. No entanto, é bom ficar alerta, pois os caminhos da humanidade podem nos reservar surpresas desagradáveis e então será tarde para retornar. A exemplo dos Rapanuis, ficaremos com nossos monumentos construídos com materiais não renováveis, não nos restando outra opção senão a da tentativa de adaptação a um ambiente árido e quente.

 

Flavio C. Geraldo
Arch Proteção de Madeiras / Lonza Company – Gerente de Mercado para América Latina
flavio.geraldo@lonza.com